Abuso Emocional

Esse texto foi postado em 2010 aqui no blog, mas quero que vocês leiam mais uma vez, pois o abuso emocional é algo muito mais comum do que se pensa.

UMA FORMA DE ABUSO EMOCIONAL
Simone Sotto Mayor

Nos dias de hoje, em que somos acossados pela violência explícita vinda de várias frentes, também somos muitas vezes testemunhas ou mesmo vítimas de um tipo de violência mais difícil de se visualizar e nem por isso menos virulenta. Essa violência advém de relacionamentos com pessoas perversas, que elegem uma vítima e passam a se dedicar à tentativa de destruí-la. Já que não é possível matá-la fisicamente, tentam assassiná-la moral, emocional e socialmente. Este tipo de ação vem sendo estudado por especialistas nos últimos anos e recebeu o nome de assédio moral uma forma de abuso emocional.

Mas, afinal, do que estamos falando? O que é um indivíduo perverso e mais, o que estamos chamando de uma relação perversa? Os estudiosos do assunto definiram indivíduos perversos como sendo aqueles que, sob a influência de seu grandioso eu, tornam-se capazes de tentar criar sempre uma relação peculiar com uma segunda pessoa. Neste tipo de relação característica, o sujeito perverso ataca particularmente a integridade psíquica do outro, visando desarmá-lo e deixá-lo à sua mercê. Assim, são atacados igualmente o amor-próprio do outro, sua confiança em si, sua auto-estima e a crença em si próprio.

Todas as pessoas estão sujeitas a terem momentos de perversidade moral do tipo descrito em suas relações com os outros. A diferença é que os verdadeiros perversos só sabem se relacionar dessa maneira em todas as esferas de sua vida. Movidos por um egocentrismo extremado e uma total falta de empatia pelos outros, esses indivíduos ainda sentem uma enorme inveja dos que parecem possuir o que eles não têm ou daqueles que, simplesmente, têm prazer com a própria vida.

O perfil das vítimas também tem sido estudado dentro da vitimologia. Esta disciplina é recente e estuda o processo de vitimização, suas conseqüências para as vítimas e os direitos que elas possam vir a reivindicar.

Durante muito tempo, dizia-se que a vítima da pessoa perversa seria masoquista. Hoje em dia, entretanto, sabe-se que elas são pessoas bem dotadas, cheias de vitalidade e colaborativas. São seduzidas para se enredar numa relação destrutiva, justamente a partir de seu feitio doador. É desse feitio que o agressor tira partido, ao se apresentar como alguém a quem a vida lesou e que necessita muito de proteção e carinho. A maior vulnerabilidade das vítimas é que elas não se vêem como realmente são. Têm dúvidas quanto a sua própria capacidade. Isso faz com que criem para si o desafio de mudar o outro, provando assim sua força e seu valor.

Mas, será mesmo possível que o agressor consiga tudo isso, sem encontrar obstáculos? Certamente, pois existem inúmeras formas básicas e simples de desestabilizar o outro e o perverso as conhece muito bem. Ele sabe por exemplo que, para tal, basta rir das convicções e dos gostos do outro, deixar de lhe dirigir a palavra, ridicularizá-lo publicamente, denegri-lo diante dos demais, colocar em dúvida sua capacidade de avaliação e decisão. E assim por diante.

Assim, um processo de desqualificação de alguém geralmente leva anos, especialmente em relações familiares, onde os cônjuges e os filhos são as vítimas mais comuns. No início, não há palavras explícitas, apenas olhares de desprezo, alusões malévolas e críticas dissimuladas. Um dia vem o momento crucial, quando surgem as palavras. “Você é mesmo uma pessoa muito complicada”, diz, por exemplo, um pai a uma filha. Esta integra esse dado, e vai se anulando realmente. Ou seja, alguém torna nula sua própria identidade porque outro decretou o que ela era.

Durante muito tempo, a vítima, confusa, não compreende o que se passa com ela. Mas quando enfim se dá conta e resolve reagir, rompendo com o seu agressor, desperta a ira do perverso. E é aí que a violência se torna intensa, explícita e implacável. Alguns perversos passam a dedicar sua vida à tentativa de destruir o outro. Essas pessoas até podem parecer se ocupar de outros projetos, mas o único que realmente lhes importa é o de tentar destruir quem ousou lhes abandonar.

Mas como é levada a cabo tarefa tão ambiciosa? Bem, para tal é preciso que sejam criadas o maior número de mentiras acerca da idoneidade da vítima, que passa a ser a culpada de tudo o que aconteceu (de ruim) ou deixou de acontecer (de bom) ao agressor. É bom lembrar que o indivíduo perverso não experimenta o menor sentimento de culpa por agir assim, pois já vimos como ele é incapaz de sentir empatia ou compaixão por outro ser humano.

A pior de todas essas situações é a que envolve as relações entre pais perversos e seus filhos, como vítimas. Aos olhos do agressor, os filhos deixam de ser seus e passam a ser apenas filhos do ex-cônjuge, merecedores, portanto, de todo o seu ódio. Nesses casos, terapias feitas nas vítimas podem ser eficazes para deter o processo de destruição da identidade. Mas é preciso que o terapeuta não venha a agir como a maioria da sociedade. Ou seja, por comodismo ou respaldados numa alegada postura “neutra”, os terapeutas podem até se omitir. Quando deixam de destacar e nomear para as vítimas esse tipo de abuso emocional, dificultam sua libertação do agressor.

Como em todos os demais casos de abuso, sabemos hoje que a vítima precisa de alguém que acredite nela, para ter forças e reagir ao massacre. Muitas vezes, basta que uma só pessoa acredite e apóie a vítima para que ela comece a se reorganizar emocionalmente. Esperemos que, se for um terapeuta o escolhido para desempenhar esse papel, ele seja capaz de abraçá-lo sem entraves, até por sua condição de ser humano, anterior à de terapeuta.

No meio cultural individualista em que vivemos atualmente, esse tipo de ataque está se tornando mais comum. Precisamos todos ter cuidado pois, a pretexto de sermos tolerantes, podemos estar sendo complacentes com uma situação desse tipo próxima a nós, facilitando assim a atuação perversa.

Simone Sotto Mayor é
Médica Psiquiatra e Psicanalista

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O texto é longo, mas fala exatamente o que eu passo.

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10 comentários sobre “Abuso Emocional

  1. Eu infelizmente conheço um situação do tipo, casa muito bem as características com as ações descritas no caso q conheço. Eu nomeava como neurose, sem conhecimento do que poderia ser, mas indiferente do nome do boi os resultados são horríveis!!!
    bj

  2. Dani, meus bebês têm 1 ano e 1 mês (hoje, aliás!). Vc vai amar ter gêmeos. É uma delícia e não tem nada de enlouquecedor que tanto falam por aí…Lá no meu blog eu conto tudo…rsss.
    Meu programa, o Lá em Casa, é ao vivo, toda terça, às 16h. E para assistir é só acessar http://www.alltv.com.br. Ah e dá pra se cadastrar e participar ao vivo do chat, mandando perguntas que respondemos na hora.

    Segue o link para vc asistir a uns programas gravados: http://vimeo.com/11149360

    • @Vanessa Caubianco, Oba! Vou assistir sim.. Adoraria assistir tb a entrevista da Jemima.

      Qto aos gêmeos.. minha mãe sempre reclamou dizendo que era trabalho dobrado (daí vc vê que ela sempre teve uma visão mais negativa da coisa). Não posso ter certeza que terei gêmeos.. é apenas um desejo meu e do maluco do meu futuro marido que já tem 3 filhos. Pelo menos um já é adulto, assim como o meu.

      Mas sabe lá? Deus olha e pensa… esses aí estão prontos, manda um extra..he he. Seus bebês são fofos, estive lendo seu blog. Apaixonante! Bjos

  3. Oi Daniela, encontrei vc no blog da Jemima e estou passando pra te conhecer. Sou mãe de gêmeos e tenho um programa sobre comportamento familiar na AllTV. Adorei seu blog e estou te seguindo. Acho que teremos muito o que fofocar…rsss. bjs

  4. Olá,
    Adorei o seu post!!!Acho muito interessante discutir sobre essas relações complicadas. Eu já sofri muito assédio moral no meu ex trabalho. Mesmo fazendo o meu impossível eu era sempre criticada e não conseguia entender. Mas um belo dia na minha terapia minha ficha caiu e eu entendi que o problema não era eu. Daí pra frente a história mudou completamente.
    Grande abraço

    • @Marcia Søvik,

      Oi Marcia, o texto não é meu, encontrei enquanto procurava sobre o assunto. Realmente não é fácil e eu bem sei que o problema não sou eu. Mas saber disso não muda ou impede o fato de eu estar passando por isso.

      Já vi esse filme umas 3 vezes com a mesma pessoa, então eu SEI onde está o problema e qual é a solução: distância. Se não for assim vamos nos destruir, pq eu não tenho sangue de barata e a minha reação causa uma reação ainda maior (e pior) na outra parte. Complicado.

      Obrigada pelo comentário, grande abraço para vc.

  5. Tão interessante esse texto, além de já ter o compromisso de voltar pra ler com mais detalhes, ainda compartilhei para outras pessoas terem acesso também.

    Olhe, que Deus te ajude a sair dessa. Muita energia nessa hora.

    Beijo

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