Nada é mais difícil do que o desapego, do que dizer adeus, do que saber-se sozinho daqui para frente. Eu ainda me pego pensando em “como é possível minha irmã ter morrido, se eu sinto a presença dela tão viva, se ao olhar para suas fotos me transporto para aquele momento, se consigo ouvir sua voz, sua risada…?”
Logo após a passagem dela para o mundo dos espíritos eu tive a grata surpresa de falar com ela, vê-la, tocá-la, foi um dos maiores presentes que Deus podia ter me dado. Para os que não sabem eu sou médium, sou espírita Kardecista e consigo me comunicar com o outro lado. Ainda é involuntário, eu não escolho quando e com quem vou falar, mas é tão forte quando acontece que não tenho dúvida nenhuma de que foi real.
Há alguns anos conheci o MAP (Movimento de Amor ao Próximo), através da minha irmã Raquel e nossa amiga Geisa. Já frequentei o Centro Espírita Francisco de Paula, na Tijuca e também tive experiências mediúnicas lá. Mas foi no MAP que eu percebi o alcance disso tudo.
Duas semanas após minha irmã ter se despedido de nós, fomos ao MAP para a Prece para os desencarnados. A missa católica havia ocorrido na semana anterior, mas eu sabia que seria no MAP que encontraria a chance de saber notícias dela. E assim foi. Quando a sessão começa ouvimos a palavra de um dos médiuns e é sempre muito bom, ouvimos e cantamos algumas músicas para nos colocarmos na mesma sintonia, a maioria de nós chega lá muito emocionados e é necessário que nos acalmemos um pouco.
Sempre que se pede uma Prece por um desercanado, devemos comparecer pois eles são avisados do outro lado, são levados ao nosso encontro. Imaginem a decepção daqueles que não vêem os seus entes nesse dia. Nesse dia fomos eu, minha madrinha Lêla e a Geisa, meu cunhado não quis ir, porque ficou com receio de se emocionar demais.
Para mim já foi dolorido chegar lá sem ela… sempre íamos juntas. Tentei me controlar para não perder nada, eu queria muito um contato com minha irmã, pelo menos saber notícias dela. E claro, Deus foi mais que generoso trazendo ela para estar conosco.
Eu sempre gostei mto da Ave Maria e quando ela começou a tocar senti uma vontade enorme de fechar os olhos e foi o começo da experiência toda. Senti o abraço da minha irmã. Ela chegou acompanhada dos dois enfermeiros que eu havia visto num dos sonhos que tive logo depois que ela faleceu. Eu estava sentada e ela estava atrás de mim, me envolveu com os braços e me beijou a face esquerda. Meu coração pulava, as lágrimas brotavam nos meus olhos cheias de emoção.
Ela sentou-se na minha frente e segurando minha mão me disse:
- Quanta saudade minha irmã, muita saudade…. mas eu não aguentava mais. Estava cansada, muito cansada. Que bom ver vocês aqui. Diz isso com as lágrimas descendo pelo rosto.
Abraçou e beijou minha madrinha e a Geisa, voltando a sentar, dessa vez do meu lado esquerdo. Continuamos de mãos dadas e ela até acompanhou algumas frases das músicas que continuávamos cantando. Às vezes colocava a cabeça no meu ombro e suspirava, nos olhávamos e ela beijava meu rosto de novo sorrindo entre lágrimas.
- Eu estou bem agora, não quero que você se preocupe. A saudade é imensa, mas eu precisava ir. Quero que você saiba que estarei sempre do seu lado e do Rodrigo. SEMPRE. Nunca vou deixar vocês dois sozinhos.
Fala isso com a mesma expressão séria e decidida, como se quisesse me dar a certeza da sua afirmação. Eu nem duvidaria.. Sorri como fazia quando estava contente, eufórica com alguma novidade, os olhos vívidos e brilhantes e passa a mão nos meus cabelos. Ahh como eu me deleitei com esses carinhos. Não havia mais o semblante triste, dolorido, cansado de tanta luta. Aquela luz radiante que era muito própria dela havia voltado. As lágrimas não eram de tristeza, eram de emoção.
Os enfermeiros se aproximam dela e ela me olha com uma carinha conformada e me diz:
- Quero que você diga à minha mãe que ela não precisa me pedir perdão por nada, por nada mesmo. E diga ao Lincoln que eu o amei e amo muito. Não esqueça.
Me beija o rosto novamente ainda segurando minhas mãos entre as dela e se levanta sorrindo. Se aproxima dos seus anjos e vai caminhando com eles, vira-se e acena como quem diz “Tchau”. Um tchau de quem vai se ver novamente muito em breve.
O curioso é que minha mãe pensou exatamente nisso logo após o falecimento dela, que não teve tempo de pedir perdão por não ter dado tudo o que ela merecia, pela vida simples que tivemos, pois era o que ela podia nos dar. Vocês imaginam como minha mãe ficou quando eu contei a ela da mensagem? Pois é.. eu chorei mais ainda.
Quando isso acontece, é como se eu assistisse a cena fora do corpo. Assisto a cena toda, inclusive vejo a mim mesma, mas assisto como se fosse uma espectadora. Ainda sonho com a Raquel, houve uma semana que sonhei todos os dias e isso estava começando a me perturbar. É complicado retomar a vida depois de tudo e ainda ter esses contatos. Haja cabeça e coração para administrar tudo.


